Artigo originalmente publicado no portal HojePR
Por Márcia Huçulak*
O tornado que deixou um rastro trágico em Rio Bonito do Iguaçu, no centro-sul do Paraná, coincidiu com o início da COP-30, trigésima conferência da ONU para as mudanças climáticas, que está sendo realizada em Belém do Pará até 21 de novembro.
O que aproxima o encontro de líderes mundiais do clima e a cidade paranaense localizada a 3.200 quilômetros de distância é o fato de que o problema em questão não respeita fronteiras, afeta a todos, no planeta inteiro.
A COP-30 também está trazendo para o centro das discussões um tema de fundamental relevância: os impactos na saúde. Eles são amplos e sérios – infelizmente, vão muito além dos mortos e feridos por eventos climáticos, o que por si só já é suficientemente grave.
Para tratar de três exemplos que estão muito próximos de nós, paranaenses. O ciclo de vida dos Aedes aegypti está mudando por conta do clima e tornando-o mais potente para transmitir dengue, chikungunya e zikavírus.
O mosquito é um vetor de doenças, como são vetores animais os responsáveis hoje por 60% das doenças infecciosas – e cada um deles com suas próprias adaptações.
A poluição ambiental, por sua vez, está associada a metade das doenças respiratórias, tão presentes no dia a dia das pessoas. As alterações no clima vão aumentar o problema: mais queimadas, inversão térmica, maior acúmulo de poluentes, entre outros.
Já as enchentes, que estão se tornando mais frequentes e intensas, como vimos recentemente em Porto Alegre, aumentam os casos de leptospirose, gastroenterites e outras doenças – além das perdas materiais.
A lista é grande, mas o importante é que todos tenham consciência de que o impacto na saúde não é fabulação de cientista trancado em laboratório, e sim questão já presente, que afeta e vai afetar ainda mais nossos sistemas de saúde.
Dessa forma, é bom ver que finalmente surgiu na COP de Belém um inédito plano internacional de adaptação climática dedicado exclusivamente à saúde, iniciativa do Brasil cuja elaboração contou com parceria dos países que sediaram as quatro COPs anteriores: Reino Unido, Egito, Azerbaijão e Emirados Árabes. O plano tem como objetivo adaptar os sistemas de saúde de cada país aos impactos de uma nova realidade climática.
Novamente, é preciso reforçar para ficar claro: tal medida não diz respeito a países, cidades, comunidades ou florestas distantes, mas ao bom funcionamento da Unidade de Saúde do seu bairro.
Entre as linhas de atuação previstas no plano está, por exemplo, a mudança da estrutura de construção de hospitais e unidades de saúde, tornando-os mais resistentes e capazes de funcionar em situações críticas (com estoques de água, energia e conectividade). Vejam como isso é importante: em Rio Bonito do Iguaçu, cinco das seis unidades de saúde foram destruídas pelo tornado.
Os outros eixos tratam do monitoramento de dados e impactos no adoecimento das populações, além da atenção aos vulneráveis.
Além desse plano maior, o Ministério da Saúde lançou esta semana o Guia de Mudanças Climáticas e Saúde, que está disponível nas plataformas do SUS Digital e traz orientações práticas para prevenção, cuidados e vigilância com relação a eventos climáticos.
Ganha relevância nesse contexto, pela relação intrínseca, o conceito da Saúde Única, que promove a abordagem integrada entre saúde humana, animal e meio ambiente e que deve estar mais presente em todas as ações de saúde.
Não se trata de um tema que o Paraná esteja alheio. Realizei na Assembleia Legislativa do Paraná, ainda em 2024, uma audiência pública justamente sobre mudanças climáticas e saúde. Reuni alguns dos grandes especialistas que atuam no nosso estado. Apresentaram um quadro bastante rico de informações e análise de dados para inspirar linhas de ação.
São passos necessários, que precisam se desenvolver, ganhar escala e permanência. Sociedade civil e o poder público, em conjunto, devem trabalhar para que mudanças climáticas e saúde façam cada vez mais parte indissociável da mesma agenda.
É uma caminhada incontornável que está só começando. Para o bem de todos.
*Márcia Huçulak, ex-secretária de Saúde de Curitiba, mestre em Planejamento de Saúde pela Universidade de Londres e especialista em Saúde Pública pela Fiocruz, é deputada estadual pelo PSD-PR.



