Artigo de opinião publicado originalmente no portal do jornal Bem Paraná.
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Por Márcia Huçulak*
Muitos pensam e alguns falam, inclusive muitas mulheres: “Pra que um Dia da Mulher? É muito mimimi”. O machismo persiste na nossa sociedade com a participação de muitas mulheres, mesmo que inconscientemente.
Isso num país onde três em cada dez mulheres sofrem ao longo da vida, só pelo fato de nascer mulher, alguma forma de violência física, psicológica, patrimonial, sexual (a pior de todas) e, muitas vezes, a morte. Sem falar das inúmeras humilhações e agressões de que a grande maioria é vítima.
Não existe democracia integral onde há violência permanente contra as mulheres.
Por isso, num país onde somos a maioria (52% da população) e temos direitos iguais na Constituição, é preciso enaltecer a data – até porque na vida cotidiana somos a maioria deixada para trás na efetivação de direitos.
O Dia da Mulher, portanto, é uma data importante para refletirmos sobre os desafios que se impõem para a tão falada igualdade de gênero.
O 8 de Março surgiu como símbolo da luta das mulheres. É um marco de consciência coletiva de que mulheres podem sim ter oportunidades reais de desenvolver seus talentos e sonhos, ser protagonista da sua história. Consciência de que a desigualdade está no cotidiano, está no cuidado não compartilhado – é a mulher que na grande maioria das vezes assume o cuidado dos filhos, da casa, dos pais idosos, entre outros; é a mulher quem renuncia à carreira, ao estudo em prol do cuidado. Consciência de que a violência é naturalizada, que a autonomia precisa ser outorgada, dificultando ou impossibilitando o estudo ou a escolha de uma profissão – quantas já não ouviram: “isso é coisa de homem”? Uma realidade, enfim, que impõe dificuldades para a mulher sonhar e realizar seus talentos.
No dia a dia se perpetua a violência muitas vezes velada, com a falácia da proteção. Nas piadinhas se manifesta o preconceito que não é combatido e emerge o cenário que subliminarmente sabota as mulheres nas suas possibilidades.
E assim muita gente nem sequer percebe que a desigualdade de gênero prejudica toda a sociedade: sub-representação na política e nos espaços de poder, salários desiguais, desperdício de talentos, perpetuação de ciclos de violência que tanto cria problemas sociais e de saúde mental na sociedade.
O custo é elevado para todos. Enquanto metade da população não puder exercer suas potencialidades, seus direitos, o desenvolvimento do país estará prejudicado. Segundo o Fórum Econômico Mundial, diminuir as desigualdades de gênero pode aumentar significativamente o crescimento econômico geral (os dados estão no Global Gender Gap Report).
A violência de gênero, por sua vez, talvez configure um dos principais desafios da sociedade moderna no Brasil.
Não passa dia sem que tenhamos conhecimento de casos graves: agressões, abusos, estupros, assassinatos. Vidas destruídas, famílias dilaceradas.
Para reverter esse quadro – para que mulheres deixem de ser agredidas ou mortas pelo simples fato de serem mulheres – é preciso mais do que a indignação que se espalha no calor do noticiário. É preciso método. Nenhuma política pública tem sucesso sem que seja construída com objetivo claro, implementada com eficiência e medida com pragmatismo. Eficiência é fundamental.
Felizmente, no Paraná temos avanços concretos para reconhecer e nos inspirar a continuar evoluindo. O número de feminicídios no Estado caiu 15% no ano passado (de 93 para 79), resultado que pode ser atribuído a vários projetos e programas. Um grande passo foi dado em 2023, com a criação da Secretaria da Mulher, Pessoa Idosa e Igualdade Racial (Semipi), que desde então vem promovendo a mobilização dos poderes públicos municipais em prol do desenvolvimento de ações de promoção das mulheres, num trabalho crescente de conscientização e busca de direitos, além da necessária estruturação de serviços.
Em outra frente, que teve a participação ativa das deputadas estaduais, o combate a violência foi feito em várias ações, como a criação da câmara especializada em violência doméstica e familiar contra mulheres, a fim de agilizar ações e punição aos agressores. Outra medida importante no âmbito do Governo do Estado foi o programa Mulher Segura, que atua com proteção, mitigação de riscos e visitas presenciais das patrulhas.
Graças aos investimentos estaduais, há hoje 215 municípios com Conselhos Municipais dos Direitos das Mulheres e 195 com Organismos de Políticas para Mulheres. São iniciativas que não podem acabar em si mesmas, mas permitir que as demandas e as soluções sejam canalizadas e efetivadas.
As ações de combate, prevenção e proteção, enfim, se desenvolvem, as denúncias crescem, o tema ganha destaque e vai sendo paulatinamente mais conhecido e discutido por todos.
É importante lembrar, no entanto, que avanço pede mais avanço – principalmente no caso do combate à violência, que não pode mais ser tolerada. Nós, como sociedade, não podemos mais permitir que a covardia se perpetue.
Se queremos uma sociedade mais justa, segura, produtiva e democrática – e queremos! – precisamos promover mais equidade para as mulheres.
Que o Dia da Mulher nos ajude a trilhar esse caminho e que os resultados sejam cada vez mais dignos dos nossos direitos.
Minha esperança e meu trabalho são para que as meninas, as jovens, todas as mulheres, de todas as etnias, de todos os rincões do país possam andar sem medo de serem agredidas ou violentadas, que possam falar sem medo de serem tolhidas, possam desenvolver seus talentos e sonhos sem serem impedidas.
Viva as mulheres!
*Márcia Huçulak é deputada estadual (PSD-PR) e ex-secretária de Saúde de Curitiba, onde liderou o combate à pandemia de covid-19. Tem mestrado em Planejamento de Saúde pela Universidade de Londres e especialização em Saúde Pública pela Fiocruz.


